Olá Sandra,
Grato pelas perguntas e continuação de diálogo!
Gosto muito das tuas respostas, mas tenho alguma dificuldade em diferenciar se aquilo que tu escreves é algo que aprendeste algures ou é a tua experiência.
Ahah, é sempre um misto! Há tanto de pescadinho de rabo-na-boca no nosso "eu" como em qualquer processo de aprendizagem e interacção com a realidade. O que escrevi experienciei, mas tudo o que leio e me vou esforçando por aprender vai-me também moldando a experiência, chamando-me a atenção para certas coisas, ajudando-me a centrar o foco nesta ou naquela sensação, etc. Portanto diria que acaba por ser uma influência mútua... Mas vou tentar responder o mais ligado às sensações que conseguir! (às vezes é difícil "desligar o cérebro" e não o deixar "contaminar" a experiência directa...)
Existe um eu dentro do corpo?
Existe um eu que controla o corpo?
Fechei os olhos e permaneci um pouco assim. A minha atenção virou-se para o sabor e temperatura na língua (tinha acabado de beber café), um prazeroso formigueiro nos pés devido a estar a senti-los descalços nos mosaicos do chão frio, e a leve pressão do peso do corpo sobre os ante-braços pousados na mesa. De olhos fechados tinha esta percepção de eu, composta principalmente por estes três grupos de sensações dentro do corpo, e que me faziam também ter uma leve sensação de presença ou volume do que é o meu corpo, pelo menos a sensação dos pés e as sensações na língua faziam-me ter a percepção do comprimento do mesmo, que de certa forma "existo" desde os pés à cabeça. Ao mesmo tempo tenho uma leve sensação de observador, de "algo", talvez situado atrás dos olhos, que "olha" o resto do corpo e estas sensações que descrevi. Reparo que se tento focar a atenção nesta "coisa que olha" começo a sentir as delimitações físicas da minha cabeça, umas subtis sensações de formigueiro na face, no coro cabeludo, no cérebro (algures dentro do crânio, mais no topo da cabeça), na nuca, e que se volto a atenção para as sensações no corpo começo a perder a sensação desta "coisa que olha" e como que esse foco de atenção começa a descer aos poucos o corpo, primeiro a garganta/pescoço, depois as costas que estão a tocar a cadeira, depois as pernas, depois o tal formigueiro nos pés a tocar o chão frio que descrevi à pouco, etc. Acho que esta a descrição de "eu dentro do corpo" unicamente através da experiência que consigo fazer para responder à tua questão.
Quanto à tua pergunta sobre se existe um eu que controla o corpo, sinto aquela opacidade que falava, não consigo bem sentir uma "coisa" que controle mas há comportamentos a emergir cá de dentro. Por exemplo, ao estar a escrever isto e depois de beber o café, sem fazer nenhum esforço consciente nesse sentido ou pensar no assunto antes de o fazer, "quis" beber água e levantei-me para a ir buscar (só me apercebi desta acção assim que o meu corpo deixo de estar a tocar a cadeira, assim que estava levantado uma "luzinha" acendeu-se cá dentro na consciência a dizer "olha, estás levantado"). Não consegui sentir o "eu" que me obrigou a levantar para ir buscar água, senti sede e o corpo naturalmente levantou-se para ir tratar do assunto. Mas agora que estou a pensar sobre essa acção (e a pensar que estou a pensar sobre essa acção, isto é, ao me pôr a pensar lembrei-me que estava a fugir da experiência directa e a ir para o pensamento intelectual, mas depois ao me aperceber disso voltei à experiência directa com o sentir que estava a pensar), o comportamento de beber água depois de beber café é algo que literalmente faço sempre, é um comportamento que está guardado algures no eu, por ventura nascido de um reconhecimento de que se beber muito café (coisa que faço) e não passar água nos dentes de seguida, que eles podem vir a amarelar, daí que é uma decisão partida do ego, de um "eu" que não quer começar a ter dentes amarelos. Ou pelo menos algo me diz (sendo este "algo me diz" uma convenção da linguagem, não estou a sentir este "algo", apenas reparo no comportamento à posteriori) que deva beber água a seguir a beber café, e que me criou esta tendência, este padrão de comportamento. O que sinto na altura é que me sabe bem beber água a seguir ao café, embora não consiga especificar este "saber bem", é um pouco como a sede, uma pessoa sente e pronto! Daí que acaba por ser um desejo, sinto um desejo, mesmo sendo um desejo opaco, como tinha referido na última resposta, não percebendo de onde ele vem. Simplesmente emerge "cá de dentro". E agora ao escrever isto voltei a sentir-me a pensar, com o pensamento que me veio à cabeça de que estou a ter um desejo, uma procura do prazer e aversão à dor típica de um ego, uma vontade de continuidade de um "eu"...
Mas bom, assim de repente foram as coisas que senti, foi o possível em termos de descrição directa e a tentar "desligar a mente"!
Um grande abraço :)