Eu = Eu

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dognaldo
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Eu = Eu

Postby dognaldo » Tue Aug 04, 2020 1:38 pm

LU is focused guiding for seeing there is no real, inherent 'self' - what do you understand by this?
Entendo que a LU tem como objetivo guiar os interessados no sentido de verem por si mesmos que, na realidade, não existe um ego substancial que seria o sujeito de seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.

What are you looking for at LU?
Justamente ver, por mim mesmo, que eu não sou um ego substancial, separado, e que, portanto, tudo é um. Ver de tal forma, que não reste dúvida e que, daí em diante, esse saber se torne permanente e não uma questão de memória.

What do you expect from a guided conversation?
Espero, em primeiro lugar, que meu guia entenda bem o português (podendo me responder em alemão, espanhol ou em inglês mesmo), e, em segundo, que ele tenha paciência para ouvir o questionamento de um professor de filosofia, tão cheio de teorias na cabeça quanto cansado de procurar pela verdade, e saiba guiá-lo para fora desse labirinto infernal.

What is your experience in terms of spiritual practices, seeking and inquiry?
Tenho buscado a verdade há cerca de 45 anos (tenho 58) por toda parte: religião, ocultismo, esoterismo, filosofia etc. Comecei pelo espiritismo, passei pela antroposofia, pelo rosacrucianismo, Krishnamurti, por várias seitas, yoga, meditação etc. Depois de bater muita cabeça, acabei me tornando professor de filosofia. No fim dos anos 80, descobri o tradicionalismo;perenealismo de Guénon e Schuon (e também de Evola). Depois disso, nunca mais deixei de considerar que, por trás de todas as tradições espirituais, há uma única e mesma sofia perene, provavelmente muito próxima do Advaita Vedanta.

On a scale from 1 to 10, how willing are you to question any currently held beliefs about 'self?
10

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Canfora
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Re: Eu = Eu

Postby Canfora » Tue Aug 04, 2020 4:03 pm

Olá dognaldo, bem vindo ao fórum da LU!
O meu nome é Sandra e vou ser a tua guia.
Obrigada pela tua introdução, fiquei com uma ideia sobre o teu percurso até chegares aqui.
Entendo que a LU tem como objetivo guiar os interessados no sentido de verem por si mesmos que, na realidade, não existe um ego substancial que seria o sujeito de seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.
Eu diria que não é bem ver que não existe um ego substancial. É ver, olhando para a realidade, que não existe um eu separado, independente, sólido. Aquele eu que imaginamos que existe e somos quando pensamos em nós.
Espero, em primeiro lugar, que meu guia entenda bem o português (podendo me responder em alemão, espanhol ou em inglês mesmo), e, em segundo, que ele tenha paciência para ouvir o questionamento de um professor de filosofia, tão cheio de teorias na cabeça quanto cansado de procurar pela verdade, e saiba guiá-lo para fora desse labirinto infernal.
Sendo portuguesa diria que entendo bem o português. Como guia vou fazer o meu melhor.
Tenho buscado a verdade há cerca de 45 anos (tenho 58) por toda parte: religião, ocultismo, esoterismo, filosofia etc. Comecei pelo espiritismo, passei pela antroposofia, pelo rosacrucianismo, Krishnamurti, por várias seitas, yoga, meditação etc. Depois de bater muita cabeça, acabei me tornando professor de filosofia. No fim dos anos 80, descobri o tradicionalismo;perenealismo de Guénon e Schuon (e também de Evola). Depois disso, nunca mais deixei de considerar que, por trás de todas as tradições espirituais, há uma única e mesma sofia perene, provavelmente muito próxima do Advaita Vedanta.
Ao que parece as ideias que tinhas e tens sobre o que é a verdade vão mudando com o tempo? Acontece-me o mesmo. As ideias, são naturalmente impermanentes. Assim sendo, como é que ideias e conveitos podem ser a porta para a verdade?

E se a verdade estiver no que não são ideias e conceitos? Se estiver aqui, agora, no que nos rodeia? Achas que a verdade pode ser encontrada fora desta realidade?

Abraço,
Sandra

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Wed Aug 05, 2020 2:01 am

Oi Sandra,

Muito obrigado pela resposta, pelo acolhimento e pela disposição em ajudar!

<<Eu diria que não é bem ver que não existe um ego substancial. É ver, olhando para a realidade, que não existe um eu separado, independente, sólido. Aquele eu que imaginamos que existe e somos quando pensamos em nós>.>

Com substancial quis dizer "algo que existe por si mesmo, que não depende de outro para existir, que encontra sua razão de ser em si mesmo". Cada vez mais desconfio da substancialidade de mim mesmo.

<<Ao que parece as ideias que tinhas e tens sobre o que é a verdade vão mudando com o tempo? Acontece-me o mesmo. As ideias, são naturalmente impermanentes. Assim sendo, como é que ideias e conceitos podem ser a porta para a verdade?>>

Sim, mudei muitas vezes de ideia e continuo mudando. (Mas sobre certas coisas, parece que já faz bastante tempo que não mudo; foi o que quis dizer quando falei da sofia perene.) Penso que as ideias possibilitam um conhecimento mediato da realidade, portanto indireto, representativo, fenomênico. Tenho certeza de que há um conhecimento imediato da realidade, ou seja, não mediado pelas ideias ou conceitos ou representações. Talvez seja em busca disso que estou há tanto tempo.

<<E se a verdade estiver no que não são ideias e conceitos? Se estiver aqui, agora, no que nos rodeia? Achas que a verdade pode ser encontrada fora desta realidade?>>

Se o conhecimento imediato, intuitivo (direto) da realidade é possível, então o nosso pensar deve ou ter outro papel (diferente do ordinário) ou então deve ser por assim dizer "abandonado".

Abraço,
dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Sat Aug 08, 2020 12:47 am

Olá Sandra,

Pensei mais sobre o que você disse:
Ao que parece as ideias que tinhas e tens sobre o que é a verdade vão mudando com o tempo? Acontece-me o mesmo. As ideias, são naturalmente impermanentes. Assim sendo, como é que ideias e conceitos podem ser a porta para a verdade?
1) Parece-me que as ideias não mudam, mas nós que, ao mudarmo-nos, escolhemos outras ideias.

2) Você quer dizer que a verdade é imutável? Pois se a realidade fosse mutável, o melhor para conhecê-la não seriam justamente os conceitos igualmente mutáveis?
E se a verdade estiver no que não são ideias e conceitos? Se estiver aqui, agora, no que nos rodeia? Achas que a verdade pode ser encontrada fora desta realidade?
Não, não acho... Mas como podemos apreender a realidade sem conceitos? A realidade faz sentido sem conceitos? Não são necessários conceitos para compreender a relação causa-efeito ou fundo-figura, por exemplo?

Abraço,
dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby Canfora » Sat Aug 08, 2020 3:20 pm

Olá dognaldo! Peço imensas desculpas pelo atraso na resposta. Tentei responder várias vezes, mas o site tem estado com problemas nos últimos dias. Ataques de bots, ao que parece. Esperemos que estabilize.

Antes de mais vou explicar-te como fazer quotes:

- colocas o cursor de texto na tua caixa de texto
- na minha resposta, seleccionas o meu texto com o lado esquerdo do rato
- carregas no simbolo de quote (o retângulo com as aspas no canto superior direito do meu post)
- para veres se ficou bem carregas em Preview

Por vezes o site vai abaixo, é sempre boa ideia fazer save do texto antes de carregar no Submit.

Se tiveres dificuldades não há problema, como estás a fazer funciona também.
1) Parece-me que as ideias não mudam, mas nós que, ao mudarmo-nos, escolhemos outras ideias.
Sim, percebo o que queres dizer.
2) Você quer dizer que a verdade é imutável? Pois se a realidade fosse mutável, o melhor para conhecê-la não seriam justamente os conceitos igualmente mutáveis?
Bom, "verdade" é um daqueles conceitos complicados que pode ter infindáveis interpretações. Se perguntares o que é a verdade a mil pessoas é provável que obtenhas mil respostas diferentes.

Neste contexto, para o que estamos aqui a fazer, verdade não é a palavra mais adequada. Realidade adapta-se melhor. Na LU definimos como real aquilo que não deixa de existir quando não estamos a pensar sobre isso.

Eu tenho uma garrafa de água aqui, na minha secretária. É possível vê-la, tocar-lhe, cheirá-la, usá-la.

Eu posso pensar sobre a garrafa de água mas se deixar de pensar na garrafa de água ela continua a estar aqui.

Podemos dizer que a garrafa de água faz parte da realidade.

Eu posso pensar numa fonte de água. Posso imaginá-la com todos os promenores, os meus pensamentos podem tornar essa fonte de água tão real quanto for possível. Mas se eu deixar de pensar sobre a fonte de água... puff. A fonte de água não existe na realidade. Não é possível ver, cheirar, tocar, sentir, saborear, ouvir, o que não é real aqui e agora.

Esta diferença entre o que é real e o que não é real é o que nos leva a saber com uma certeza absoluta que, por exemplo, o Pai Natal não existe. Ou o Super Homem. Ou o Equador. Ou unicórnios. Ou um eu separado.

Vou publicar mas ainda não acabei, é só para o caso de o site deixar de funcionar outra vez.

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Re: Eu = Eu

Postby Canfora » Sat Aug 08, 2020 4:37 pm

Não, não acho... Mas como podemos apreender a realidade sem conceitos? A realidade faz sentido sem conceitos? Não são necessários conceitos para compreender a relação causa-efeito ou fundo-figura, por exemplo?
Os conceitos são muitíssimo úteis. Sem eles a humanidade tal como a conhecemos não existia, suponho eu. Mas por outro lado, os conceitos não são tudo. Não é possível ver, tocar, cheirar, ouvir, saborear um conceito. Se estivermos com fome, os conceitos não podem ser comidos :)

Os conceitos são muito úteis para nos compreendermos uns aos outros, a linguagem é algo de extraordinário. Mas por vezes cria ilusões. A ilusão do eu é criada pela linguagem, pela tendência que temos em acreditar em conceitos sem os questionar.
Com substancial quis dizer "algo que existe por si mesmo, que não depende de outro para existir, que encontra sua razão de ser em si mesmo". Cada vez mais desconfio da substancialidade de mim mesmo.
Essa é uma boa definição do eu. O sujeito, algo que existe por si mesmo.
Sim, mudei muitas vezes de ideia e continuo mudando. (Mas sobre certas coisas, parece que já faz bastante tempo que não mudo; foi o que quis dizer quando falei da sofia perene.) Penso que as ideias possibilitam um conhecimento mediato da realidade, portanto indireto, representativo, fenomênico. Tenho certeza de que há um conhecimento imediato da realidade, ou seja, não mediado pelas ideias ou conceitos ou representações. Talvez seja em busca disso que estou há tanto tempo.
Sim, sim, sim, percebo o que queres dizer. A ideia é focar a tua exploração no conhecimento imediato da realidade.
Se o conhecimento imediato, intuitivo (direto) da realidade é possível, então o nosso pensar deve ou ter outro papel (diferente do ordinário) ou então deve ser por assim dizer "abandonado".
Podes conjugar as duas coisas. Não é necessário alterar o conteúdo dos pensamentos para ver que um eu não existe aqui e agora. O nosso objetivo não é fazer com que penses de outra forma ou pares de pensar. É olhar para o que está aqui, agora, tal como é. Olhar com os olhos, com os sentidos. E descrever o que é visto usando conceitos.

Se eu te pedir para descreveres o mim mesmo de que falas aqui:
Com substancial quis dizer "algo que existe por si mesmo, que não depende de outro para existir, que encontra sua razão de ser em si mesmo". Cada vez mais desconfio da substancialidade de mim mesmo.
o que é que descrevias? Se este eu, este mim mesmo, existe por si mesmo, deve ser como uma garrafa de água. Algo com uma existência tangível, sólida, separada. Tem que estar aqui, agora, disponível para ser observado, sentido. Se olhares ao teu redor, o que é que encontras que se encaixe neste conceito do eu, deste mim de que falas?

Não te preocupes em dar a resposta correta. Escreve de forma expontânea e se tiveres dúvidas diz.

Um abraço,
Sandra

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Mon Aug 10, 2020 3:02 pm

Olá Sandra,
Os conceitos são muitíssimo úteis. Sem eles a humanidade tal como a conhecemos não existia, suponho eu.


São meramente úteis ou indispensáveis, necessários?
Mas por outro lado, os conceitos não são tudo. Não é possível ver, tocar, cheirar, ouvir, saborear um conceito. Se estivermos com fome, os conceitos não podem ser comidos :)
Sim, claro, o conceito de maçã não cheira nem pode ser comido, assim como o conceito de cachorro não late nem morde. Mas sem eles podemos saber o que é uma maçã, um cachorro e um conceito?
Os conceitos são muito úteis para nos compreendermos uns aos outros, a linguagem é algo de extraordinário.
Você tocou num problema complicado... Sim, não há linguagem verbal sem conceitos, mas será que não há conceitos sem linguagem?
Mas por vezes cria ilusões. A ilusão do eu é criada pela linguagem, pela tendência que temos em acreditar em conceitos sem os questionar.
Mas o eu não é um complexo de pensamentos, sentimentos e volições? E quanto ao corpo; o eu seria possível sem ele, com suas propriedades e sensações? Outra coisa: as ilusões existem enquanto ilusões! A fata morgana, p.ex.: não há água no horizonte, mas há a percepção, a ilusão ótica, da água.
Essa é uma boa definição do eu. O sujeito, algo que existe por si mesmo.
Pois é: não seria o caso de o eu empírico, o dognaldo p.ex., não existir por si mesmo, mas, por assim dizer, por trás dele e de todos os demais eus empíricos, "existir" um Eu não empírico?
Sim, sim, sim, percebo o que queres dizer. A ideia é focar a tua exploração no conhecimento imediato da realidade.
Ok, é o que estou procurando fazer... mas, quando me dou conta, já estou novamente perdido em pensamentos.
Podes conjugar as duas coisas. Não é necessário alterar o conteúdo dos pensamentos para ver que um eu não existe aqui e agora. O nosso objetivo não é fazer com que penses de outra forma ou pares de pensar. É olhar para o que está aqui, agora, tal como é. Olhar com os olhos, com os sentidos. E descrever o que é visto usando conceitos.
Olhar sem conceitos, e depois descrever o visto por meio de conceitos, certo? Mas onde está a botão on/off ou a tecla Shift?
Se eu te pedir para descreveres o mim mesmo de que falas aqui: <<Com substancial quis dizer "algo que existe por si mesmo, que não depende de outro para existir, que encontra sua razão de ser em si mesmo". Cada vez mais desconfio da substancialidade de mim mesmo>>, o que é que descrevias? Se este eu, este mim mesmo, existe por si mesmo, deve ser como uma garrafa de água. Algo com uma existência tangível, sólida, separada. Tem que estar aqui, agora, disponível para ser observado, sentido. Se olhares ao teu redor, o que é que encontras que se encaixe neste conceito do eu, deste mim de que falas?
Corpo, sensações, sentimentos, desejos, pensamentos, tudo misturado... Não sou como uma garrafa, e até posso ser uma ilusão (como acredito ser o caso), mas, como disse, uma ilusão é uma ilusão, tanto que pode causar grandes estragos. A questão é então como passar do conceito de ilusão para a percepção da ilusão.

Abraço,
dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Mon Aug 10, 2020 3:10 pm

Olá Sandra,
Na LU definimos como real aquilo que não deixa de existir quando não estamos a pensar sobre isso. Eu tenho uma garrafa de água aqui, na minha secretária. É possível vê-la, tocar-lhe, cheirá-la, usá-la. Eu posso pensar sobre a garrafa de água mas se deixar de pensar na garrafa de água ela continua a estar aqui. Podemos dizer que a garrafa de água faz parte da realidade.
Mas como você sabe que a garrafa continuará aí? Para saber isso, é preciso dispor do conceito de substância. Posso defender racionalmente tanto que não há absolutamente garrafa quando ninguém a percebe ou que há algo em si incognoscível, que, quando percebido, é o que chamamos garrafa.
Eu posso pensar numa fonte de água. Posso imaginá-la com todos os promenores, os meus pensamentos podem tornar essa fonte de água tão real quanto for possível. Mas se eu deixar de pensar sobre a fonte de água... puff. A fonte de água não existe na realidade. Não é possível ver, cheirar, tocar, sentir, saborear, ouvir, o que não é real aqui e agora.
Mas isso não é outra coisa? Parece claro que a imaginação não cria a realidade.
Esta diferença entre o que é real e o que não é real é o que nos leva a saber com uma certeza absoluta que, por exemplo, o Pai Natal não existe. Ou o Super Homem. Ou o Equador. Ou unicórnios. Ou um eu separado.
Mas esses exemplos pertencem a uma mesma classe? Sei que Papai Noel e Super-homem não existem porque, dado o mundo como ele é, com suas leis naturais, eles são impossíveis. Já o Equador não passa de uma convenção. Quanto a um eu separado, aí depende do que se entende por isso.

Abraço,
dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby Canfora » Mon Aug 10, 2020 4:55 pm

Olá dognaldo!

Obrigada pela tua resposta. Se não sentires necessidade de comentares algo que eu diga, não precisas de escrever o que quer que seja.
São meramente úteis ou indispensáveis, necessários?
É uma boa pergunta. Tenho a impressão de que, apesar de necessários para algumas coisas, por vezes não são nem úteis nem tão indespensáveis como pensamos que são.
Sim, claro, o conceito de maçã não cheira nem pode ser comido, assim como o conceito de cachorro não late nem morde. Mas sem eles podemos saber o que é uma maçã, um cachorro e um conceito?
Talvez não. Acho que aqui o que interessa é perceber a distinção entre conceito e "coisa". A "coisa" existe independentemente do conceito.
Você tocou num problema complicado... Sim, não há linguagem verbal sem conceitos, mas será que não há conceitos sem linguagem?
Eu diria que não! Consegues pensar em algum? Eu não consigo.
Mas o eu não é um complexo de pensamentos, sentimentos e volições?
Não. Um pensamento não é um eu. Um sentimento não é um eu. Uma volição não é um eu. E uma mix disto tudo também não é um eu.
E quanto ao corpo; o eu seria possível sem ele, com suas propriedades e sensações?
Para encontrares a resposta para esta pergunta, tens primeiro de ver se o eu é. Se existe.
Outra coisa: as ilusões existem enquanto ilusões! A fata morgana, p.ex.: não há água no horizonte, mas há a percepção, a ilusão ótica, da água.
Oh sim, sem dúvida.
Pois é: não seria o caso de o eu empírico, o dognaldo p.ex., não existir por si mesmo, mas, por assim dizer, por trás dele e de todos os demais eus empíricos, "existir" um Eu não empírico?
O que dizes aqui fez-me pensar na minha imagem de perfil. Pensamento circular, tartarugas all the way down.
Ok, é o que estou procurando fazer... mas, quando me dou conta, já estou novamente perdido em pensamentos.
É normal. Ao ler as tuas respostas fico com a impressão de que gostas de pensar, de tentar perceber, de explorar ideias. Não há nada de errado com isso. Mas, como são os pensamentos que criam a ilusão do eu, não é através dos pensamentos que se consegue ver a ilusão. Com os pensamentos é possível perceber a ilusão. Mas ver? Não. E o nosso objetivo é fazer com que vejas.
Olhar sem conceitos, e depois descrever o visto por meio de conceitos, certo? Mas onde está a botão on/off ou a tecla Shift?
Hmm... digamos que não sabes onde é que tens as chaves de casa. É necessário fazer on ou off para achares as chaves? Podes sem dúvida pensar sobre onde é que elas estão, onde é que as viste pela última vez, mas qual é o caminho direto para achares as chaves? Não é preferível ires olhar para o que está na mesa da cozinha, no móvel da sala ou procurar no bolso do casaco? Esta exploração é igual. Estamos à procura de um eu separado, sólido, independente ou conceptual, feito de pensamentos - o que quer que seja que penses que o eu é. E, se vires que afinal aquilo que pensavas que é o eu, não é o eu, é muito provável que vejas que afinal aqui e agora não existe um eu.
Corpo, sensações, sentimentos, desejos, pensamentos, tudo misturado... Não sou como uma garrafa, e até posso ser uma ilusão (como acredito ser o caso), mas, como disse, uma ilusão é uma ilusão, tanto que pode causar grandes estragos. A questão é então como passar do conceito de ilusão para a percepção da ilusão.
Sim. Mas, não sendo tu um conceito, então já és o que és. A ideia não é saber o que és. É ver o que não é. O que não está aqui. O que és é real. O que não és não é real :) A ideia é olhar para o que é real (o que está indubitávelmente aqui, agora) para ver o que não está. Como é que uma criança sabe que o Pai Natal não é real? Percebe de alguma forma que afinal o Pai Natal é uma personagem imaginária ao comparar as ideias que tinha com a realidade. E voilá, fim da ilusão. O que não quer dizer que não continue a querer que o Pai Natal lhe traga presentes...
Mas como você sabe que a garrafa continuará aí? Para saber isso, é preciso dispor do conceito de substância. Posso defender racionalmente tanto que não há absolutamente garrafa quando ninguém a percebe ou que há algo em si incognoscível, que, quando percebido, é o que chamamos garrafa.
Sim, podemos brincar com o conceito de garrafa indo do micro para o macro ou com especulações sobre o que é a realidade. Mas quando tivermos sede a garrafa vai ser percepcionada como aquilo que é, uma garrafa.
Parece claro que a imaginação não cria a realidade.
Sim, acho que era isso que eu queria dizer.
Mas esses exemplos pertencem a uma mesma classe? Sei que Papai Noel e Super-homem não existem porque, dado o mundo como ele é, com suas leis naturais, eles são impossíveis. Já o Equador não passa de uma convenção. Quanto a um eu separado, aí depende do que se entende por isso.
Sim, sem dúvida.

Quando pensas em ti como sendo um eu, no que é que pensas? O que é este eu? Onde está exatamente? Consegues descrevê-lo?

Abraço,
Sandra

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Tue Aug 11, 2020 12:54 am

Oi Sandra,
Quando pensas em ti como sendo um eu, no que é que pensas? O que é este eu? Onde está exatamente? Consegues descrevê-lo?
Penso numa série de características físicas, psicológicas, culturais etc., todas com a respectiva história, mas, aparentemente, nenhuma delas substancial (no sentido forte, de imutável). Mas então eu me pergunto: se não sou nada de permanente, como posso saber isso? Para identificar o impermanente não é preciso conhecer o permanente? E o que seria este? Parece que quando penso em mim, eu me divido em dois: um eu objeto e um eu sujeito, que por sua vez não pode ser objetivado. Como nossos olhos, que não podem ver-se a si mesmos. A não ser no espelho. Mas os olhos refletidos não veem!

Abraço,

dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby Canfora » Wed Aug 12, 2020 2:17 pm

Viva dognaldo,
Penso numa série de características físicas, psicológicas, culturais etc., todas com a respectiva história, mas, aparentemente, nenhuma delas substancial (no sentido forte, de imutável). Mas então eu me pergunto: se não sou nada de permanente, como posso saber isso? Para identificar o impermanente não é preciso conhecer o permanente? E o que seria este? Parece que quando penso em mim, eu me divido em dois: um eu objeto e um eu sujeito, que por sua vez não pode ser objetivado. Como nossos olhos, que não podem ver-se a si mesmos. A não ser no espelho. Mas os olhos refletidos não veem!
Não penses, olha. Olha à tua volta, procura um eu real.

Consegues ver um eu?
Consegues tocar um eu?
Consegues cheirar um eu?
Consegues saborear um eu?
Consegues ouvir um eu?

Onde está um eu exatamente?

Abraço,
S

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Wed Aug 12, 2020 7:12 pm

Oi Sandra,

Você havia me perguntado no que penso:
Quando pensas em ti como sendo um eu, no que é que pensas?
Agora me pede para olhar e tentar ver, tocar, cheirar, saborear e ouvir:
Não penses, olha. Olha à tua volta, procura um eu real. Consegues ver um eu? Consegues tocar um eu? Consegues cheirar um eu? Consegues saborear um eu? Consegues ouvir um eu?
Eu não sou o meu corpo, ou pelo menos não me esgoto nele. E se não sou corpo nem parte dele (talvez o corpo seja parte do eu), então como poderia ser percebido pelos sentidos?
Onde está um eu exatamente?
Não encontro o eu entre os objetos do sentidos, o que me parece óbvio.

O problema é não o encontro nem entre os objetos do sentido interno...

Mas isso quer dizer, necessariamente, que eu não existo?

Não faz sentido; afinal, tem alguém aqui (?) procurando, perguntando...

Essa "instância" mais profunda, essa presença, consciência, está sempre acompanhando os meus atos, tanto de ver, ouvir, cheirar etc., como de pensar, perguntar, sentir etc.

A impressão, a "sensação" que tenho é que os atos não são realizados por ninguém, nenhum sujeito substancial, apenas surgem e desaparecem.

Mas, de alguma forma, eles, os atos, são notados, "apercebidos" por uma consciência que não consigo identificar, mas da qual é impossível duvidar.

Como seria possível duvidar de que se duvida?

Abraço,

dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby Canfora » Sat Aug 15, 2020 2:06 pm

Viva dognaldo,
Mas isso quer dizer, necessariamente, que eu não existo?
O facto óbvio de que existes prova a existência de um eu? Se um eu não pode ser encontrado dentro e se um eu não pode ser encontrado fora, como é que um eu pode existir?

Dá-me 3 exemplos de coisas que sabes que existem e explica-me como é que sabes que elas existem, se faz favor, para eu perceber, na prática, como é que sabes se algo é real.

Abraço,
S

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Sat Aug 15, 2020 5:21 pm

Viva Sandra,,

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O facto óbvio de que existes prova a existência de um eu?
Não, não prova; mas também não prova o contrário, a inexistência de um eu.

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Se um eu não pode ser encontrado dentro e se um eu não pode ser encontrado fora, como é que um eu pode existir?
Se o campo da existência não se esgotar no que chamamos de dentro e de fora. Chamamos de fora o campo espaçotemporal. E de dentro, o campo apenas temporal.

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Dá-me 3 exemplos de coisas que sabes que existem e explica-me como é que sabes que elas existem, se faz favor, para eu perceber, na prática, como é que sabes se algo é real.
Sei que a árvore no centro da Amazônia existe porque, embora não tenha nunca sido percebida, ela pode vir a ser percebida. O Papai Noel não existe porque ele não nunca foi e nunca será percebido, e não o será porque é impossível que, neste mundo, com estas leis, exista um ente como Papai Noel.

O eu empírico chamado dognaldo é e pode ser percebido por fora e por dentro (corpo, emoções, memória etc.). Mas disso não se segue que o dognaldo seja uma substância separada. Pode ser que se reduza a uma ilusão, um feixe de percepções, uma simulação, uma realidade meramente virtual etc.

A questão é como podemos perceber e saber tudo isso (árvore, Papai Noel, dognaldo etc.)?

Como é possível que algo seja ou possa vir a ser percebido?

Quem ou o que percebe?

Como sei algo sobre espaço, tempo, causalidade, substancialidade etc., se essas "coisas" não podem ser percebidas, mas sem as quais nada pode ser percebido?

Abraço,
dognaldo

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Re: Eu = Eu

Postby dognaldo » Sat Aug 15, 2020 5:21 pm

Viva Sandra,,

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O facto óbvio de que existes prova a existência de um eu?
Não, não prova; mas também não prova o contrário, a inexistência de um eu.

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Se um eu não pode ser encontrado dentro e se um eu não pode ser encontrado fora, como é que um eu pode existir?
Se o campo da existência não se esgotar no que chamamos de dentro e de fora. Chamamos de fora o campo espaçotemporal. E de dentro, o campo apenas temporal.

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Dá-me 3 exemplos de coisas que sabes que existem e explica-me como é que sabes que elas existem, se faz favor, para eu perceber, na prática, como é que sabes se algo é real.
Sei que a árvore no centro da Amazônia existe porque, embora não tenha nunca sido percebida, ela pode vir a ser percebida. O Papai Noel não existe porque ele não nunca foi e nunca será percebido, e não o será porque é impossível que, neste mundo, com estas leis, exista um ente como Papai Noel.

O eu empírico chamado dognaldo é e pode ser percebido por fora e por dentro (corpo, emoções, memória etc.). Mas disso não se segue que o dognaldo seja uma substância separada. Pode ser que se reduza a uma ilusão, um feixe de percepções, uma simulação, uma realidade meramente virtual etc.

A questão é como podemos perceber e saber tudo isso (árvore, Papai Noel, dognaldo etc.)?

Como é possível que algo seja ou possa vir a ser percebido?

Quem ou o que percebe?

Como sei algo sobre espaço, tempo, causalidade, substancialidade etc., se essas "coisas" não podem ser percebidas, mas sem as quais nada pode ser percebido?

Abraço,
dognaldo


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