Quem sou eu?

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Maylson
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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Wed Oct 08, 2025 4:11 pm

Bom dia, Edson!

O que você descreve é refinado. Há clareza, honestidade e real intimidade com o que aparece.
Mas perceba: ainda há algo em você tentando garantir que há algo que é.

Quero te convidar a olhar esse detalhe sutil: quando você fala dessa “certeza de ser”, ainda há algo aí tentando se garantir, como se existisse uma base segura que “é”, independentemente de tudo.


Veja, bem agora: essa certeza, onde está?
Não como ideia, mas na experiência direta.
Ela tem forma, localização, textura, onde ela se manifesta?
Se não for pensada, ela continua presente por si?

Perceba que o próprio impulso de afirmar “isso está sempre aqui” já é um movimento, uma tentativa de se apoiar. O “ser” que parece fixo é, na verdade, mais um aparecer. A diferença é que ele é muito sutil, quase invisível, e por isso costuma ser tomado como permanente.

Quando a mente diz “se estou iludido, continuo sendo”, observe: esse “continuo sendo” é só outro pensamento agora.
Antes que ele surja, há o quê?
Nada a ser visto, nada a ser segurado... e ainda assim, tudo está acontecendo.

Não se trata de negar o ser, nem de afirmar o não-ser.
Apenas veja o que permanece quando até a ideia de existir se dissolve.
Sem precisar garantir nada, sem precisar ser alguém que sabe.

O que você chama de “certeza de ser” é o último refúgio do buscador.
A liberdade está justamente aí, quando até a certeza de ser é deixada cair.
O que sobra não é ausência, nem presença. É só isso, sem dono, sem fundo, sem nome.
May.

"The moment I am aware that I am aware I am not aware. Awareness means the observer is not"
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Edson
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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Thu Oct 09, 2025 1:37 pm

Oi May,

Ocorre-me a metáfora das nuvens. Parece-me que os objetos em geral, inclusive o Edson, são como nuvens, que vêm e vão, formam-se e dissolvem-se. O que chamo de consciência ou certeza de ser é como o céu.

Outra metáfora afim é a do espaço. Podemos virar e mexer nas coisas, nos objetos, p. ex., nos móveis de uma sala. Mas o próprio espaço (aqui, a consciência) não se move nem se afeta de modo nenhum.

Se a consciência fosse como uma nuvem ou como um móvel, não seria necessária outra consciência para saber que a primeira surgiu e desapareceu, veio e se foi?

Não me parece que pensamentos, sentimentos ou volições possam ter consciência. Como somos conscientes deles?

Por mais que olhe, não consigo ver o que você descreve. Vou persistir, o mais atento possível à interferência de pensamentos e crenças.

Abraço,
Edson

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Maylson
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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Fri Oct 10, 2025 1:29 am

Oi Edson,

Vamos olhar parte por parte do que você trouxe, mantendo atenção ao que já foi percebido, e aprofundar na experiência direta, ok?

Vou deixar alguns exercícios ao longo de nossa conversa. Podem parecer repetitivos, mas é a única forma de permitir abertura para ver na sua experiência direta.

“Ocorre-me a metáfora das nuvens. Parece-me que os objetos em geral, inclusive o Edson, são como nuvens, que vêm e vão, formam-se e dissolvem-se. O que chamo de consciência ou certeza de ser é como o céu.”
Gostei da imagem das nuvens e do céu. Mas observe bem:

Quando você “vê” o céu e as nuvens, o próprio ato de ver já não é, ele mesmo, aquilo que você chama de consciência?

Há realmente dois (as nuvens e o céu) ou tudo isso aparece como um único fluxo, só se mostrando de modos/formas diferentes?

Quando você percebe a certeza de ser, ela surge em algum lugar separado do que está sendo visto ou sentido, ou é parte do mesmo movimento que as nuvens e o céu?


Exercício: feche os olhos por alguns instantes e observe o surgir de imagens, sons e sensações etc. Perceba se há algum ponto “onde a consciência está” ou se é tudo apenas acontecer, sem alguém por trás.


“Outra metáfora afim é a do espaço. Podemos virar e mexer nas coisas, nos objetos, p. ex., nos móveis de uma sala. Mas o próprio espaço (aqui, a consciência) não se move nem se afeta de modo nenhum.”
Veja diretamente na sua experiência:

Esse “espaço” que parece fixo, onde ele está agora?

É algo separado das coisas que surgem nele, ou o próprio espaço é apenas o aparecer das coisas, sem existir “por trás” delas?

Se você tenta localizar o espaço fora do que aparece, já não está dentro da própria experiência que aparece?

Exercício: novamente, observe um som, uma sensação ou um pensamento. Pergunte-se: onde está o espaço que os “contém”? Ele é um objeto ou apenas o próprio aparecer desses elementos?


“Se a consciência fosse como uma nuvem ou como um móvel, não seria necessária outra consciência para saber que a primeira surgiu e desapareceu, veio e se foi?”
Olhe diretamente: há mesmo “uma consciência que sabe da outra”, ou isso é apenas outro pensamento surgindo no fluxo da experiência?

Antes de pensar “eu sei que existe consciência”, já havia o simples acontecer dos sons, das sensações, dos pensamentos?

Se sim, a consciência que você chama de “céu” realmente precisa de outra consciência para se perceber, ou ela é o próprio aparecer do que surge?


Exercício: feche os olhos e observe algo que surge (som, sensação, pensamento). Note se há algum ponto de quem “sabe” ou se é tudo o mesmo fluxo.
“Não me parece que pensamentos, sentimentos ou volições possam ter consciência. Como somos conscientes deles?”
Exato. Mas então, quem ou o que percebe os pensamentos, sentimentos e volições?

Há um “alguém” separado observando ou é o próprio surgimento dessas experiências que já é percebido, imediatamente, sem intermediário?

Se não há separação, a consciência não seria apenas o próprio aparecer do que surge, inseparável dos pensamentos, sentimentos e sensações?

Exercício: observe um pensamento surgindo agora. Pergunte-se: há alguém separado percebendo, ou o pensamento já se mostra por si mesmo, junto com o perceber?

“Por mais que olhe, não consigo ver o que você descreve. Vou persistir, o mais atento possível à interferência de pensamentos e crenças.”
Essa postura é valiosa. Persistir na observação direta é exatamente o que clareia essa percepção.

O que surge quando você deixa de procurar explicações e apenas observa a experiência como ela é, sem interposição de conceitos?

Se observar profundamente, é possível perceber que até a “certeza de ser” é apenas mais um conteúdo que aparece, inseparável do que surge agora?

Exercício: dedique alguns instantes a apenas observar, sons, sensações, pensamentos, a própria sensação de existir, sem tentar descrever ou entender. Note se há algum ponto “que sabe” ou se tudo é apenas o acontecer.


Edson, o objetivo aqui não é afirmar, negar ou provar nada. O que importa é a investigação direta na sua experiência. Tudo o que foi aprendido, lido ou pensado sobre espiritualidade, consciência ou observador não tem valor neste momento. Aqui, nada substitui o olhar atento para o que surge agora. O ponto é ver, sentir e perceber diretamente, sem se apoiar em narrativas antigas ou ideias já formadas.

Quando desapegamos de antigas crenças e narrativas, damos espaço para ver as coisas como de fato elas são! A palavra não é a coisa.

Cada observação sua é uma oportunidade de ver que a própria “certeza de ser” já é parte do fluxo que você observa, e que não há ninguém além do que acontece.
May.

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Edson
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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Sat Oct 11, 2025 11:32 pm

Olá,
Quando você “vê” o céu e as nuvens, o próprio ato de ver já não é, ele mesmo, aquilo que você chama de consciência?
Sim, se não é acompanhado do conhecer, do ser consciente do ver e do visto, o ver não existe. Percebo o que você quer mostrar. Concordo que não há percepão, sensação, sentimento, volição, pensamento etc. sem consciência. Nesse sentido, é verdade que a consciência acompanha e forma uma unidade com isso tudo. O meu ponto é que eu posso ser consciente independentemente de perceber, sentir, pensar etc. As nuvens fazem parte do céu, não existem sem ele, mas o céu não precisa das nuvens para existir.
Há realmente dois (as nuvens e o céu) ou tudo isso aparece como um único fluxo, só se mostrando de modos/formas diferentes?
Como disse, tudo é simultâneo. A diferença é que os objetos, as nuvens, surgem, se transformam e desaparecem, enquanto o céu não surge, não se transforma nem desaparece. E é exatamente por isso que podemos afirmar que as coisas surgem, se transformam e desaparecem.
Quando você percebe a certeza de ser, ela surge em algum lugar separado do que está sendo visto ou sentido, ou é parte do mesmo movimento que as nuvens e o céu?
A certeza de ser não surge, não se modifica nem desaparece. Ela sempre existiu e sempre existirá. É a mesma certeza que eu tinha aos 10 anos, aos 20, 30...e 60 anos. E agora mesmo. O velho Edson é bem diferente do jovem Edson. O Edson alegre e eufórico é bem diferente do triste e deprimido. Mas a certeza de ser permanece a mesma. Noutras palavras, o Edson, e seu estados de ânimo e circustâncias em geral, não é o sujeito mas apenas um objeto da consciência.
Exercício: feche os olhos por alguns instantes e observe o surgir de imagens, sons e sensações etc. Perceba se há algum ponto “onde a consciência está” ou se é tudo apenas acontecer, sem alguém por trás.
Não há nenhum ponto nem ninguém. A consciência de ser é não local. Não tem nenhuma qualidade objetiva. Por isso não pode ser conhecida objetivamente, nem encontrada em nenhuma parte, seja fora ou dentro, na mente ou no corpo.
Esse “espaço” que parece fixo, onde ele está agora? É algo separado das coisas que surgem nele, ou o próprio espaço é apenas o aparecer das coisas, sem existir “por trás” delas?
Espaço é só uma metáfora. Mas é uma boa metáfora. Tente imaginar o seu ambiente sem objetos. Vá eliminando um por um, até não sobrar nada, nem paredes, nem prédio, nem a cidade, o planeta, o universo, nada. O que acontece? Você conseguirá imaginar o espaço vazio, mas não conseguirá imaginar o nada, ou seja, o não espaço. A mesma coisa se passa com a consciência. Ela é ineliminável.
Se você tenta localizar o espaço fora do que aparece, já não está dentro da própria experiência que aparece?
O espaço não é localizável; ele é que permite localizar as coisas. A consciência é não local, não objetiva, "subjetiva", não pode ser localizada no cérebro, no corpo, na mente, em parte nenhuma. É incognoscível. Estar ciente de si não é se conhecer psicofisiologicamente, mas simplesmente ser consciente.
Exercício: novamente, observe um som, uma sensação ou um pensamento. Pergunte-se: onde está o espaço que os “contém”? Ele é um objeto ou apenas o próprio aparecer desses elementos?
Outra metáfora: a onda que se quebra na praia é o próprio oceano, mas o oceano continua existindo sem ondas. Ou o Sol, que ilumina tudo, mas é autoimuninante.
Olhe diretamente: há mesmo “uma consciência que sabe da outra”, ou isso é apenas outro pensamento surgindo no fluxo da experiência?
Não há duas consciências, muito menos bilhões de consciências. Pensamentos não são conscientes de nada. Mas, para existirem, precisam ser conscientizados. O que seria um pensamento desconhecido?
Antes de pensar “eu sei que existe consciência”, já havia o simples acontecer dos sons, das sensações, dos pensamentos?
Não, para mim é justamente o contrário: sem saber de mim, como consciência, não poderia saber de nada outro.
Se sim, a consciência que você chama de “céu” realmente precisa de outra consciência para se perceber, ou ela é o próprio aparecer do que surge?
Eu apenas usei um argumento ad absurdum: se a consciência surgisse e desaparecesse com os objetos, nós não poderíamos afirmar nem mesmo isso, ou seja, que ela surge e desaparece, pois, para constatar isso, seria necessário estar consciente durante o surgimento e desaparecimento da consciência.
Exercício: feche os olhos e observe algo que surge (som, sensação, pensamento). Note se há algum ponto de quem “sabe” ou se é tudo o mesmo fluxo.
De novo: é tudo a mesma coisa, não há um "sujeito" com qualidades objetivas, localizável por trás do fluxo. Agora, se você me pergunta se estou consciente, responderei imediatamente que sim e independentemente do fluxo.
Há um “alguém” separado observando ou é o próprio surgimento dessas experiências que já é percebido, imediatamente, sem intermediário?
May, o ego, o Edson, é um feixe de impressões, crenças, necessidades, desejos, narrativas, histórias etc. Ele não pode conhecer nada sem a consciência. O que ocorre é que a consciência, de alguma forma misteriosa, pelo menos para mim, se individualiza ao se identificar com objetos, a começar com o corpo. Essa identificação da mente não pessoal com uma suposta pessoa é o que chamamos de mente, cujo núcleo é o ego. O corpo-mente-ego deve sua aparente existência à consciência. Então, é claro que se pode afirmar que ego e consciência são a mesma coisa. Mas do ponto de vista da consciência, do céu, do oceano, não são.
Se não há separação, a consciência não seria apenas o próprio aparecer do que surge, inseparável dos pensamentos, sentimentos e sensações?
Não é essa a minha experiência. E você já percebeu que não sou iniciante nisso. Pensamentos, sentimentos e sensações são inseparáveis da consciência, mas esta é perfeitamente distinguível disso tudo. Sem prejuízo da não-dualidade.
Exercício: observe um pensamento surgindo agora. Pergunte-se: há alguém separado percebendo, ou o pensamento já se mostra por si mesmo, junto com o perceber?
O aparecer dos pensamentos é o mesmo processo que sua conscientização. Mas disso não se segue que a consciência também apareça ou desapareça com eles. Isso contradiz a nossa experiência. Não sei como você pode pensar assim, se é que pensa mesmo assim.
O que surge quando você deixa de procurar explicações e apenas observa a experiência como ela é, sem interposição de conceitos?
Essa é uma questão complexa, não? Em primeiro lugar, porque precisamos recorrer a conceitos para responder. Em segundo, porque a fronteira entre a experiência imediata e a conceitualmente mediada é, por assim dizr, contraintuitiva. Até que ponto conceitos não são necessários para que "percebamos" qualidades espaciais e temporais, como cores, formas, dimensões, movimentos etc.? Será que o próprio espaço não é um conceito? Como podemos distinguir forma e fundo, por exemplo, um professor diante da lousa, sem conceitos espaciais, topográficos etc.? Não consigo perceber, mas apenas abstrair. Mas posso muito bem distinguir a consciência de ser da consciência de objetos.
Se observar profundamente, é possível perceber que até a “certeza de ser” é apenas mais um conteúdo que aparece, inseparável do que surge agora?
Até agora, não. O que significa, no meu caso, anos a fio. A certeza de ser não é conteúdo, mas, por assim dizer, o continente.
Exercício: dedique alguns instantes a apenas observar, sons, sensações, pensamentos, a própria sensação de existir, sem tentar descrever ou entender. Note se há algum ponto “que sabe” ou se tudo é apenas o acontecer.
Volto aos óculos no nariz: não posso observar a consciência, pois é ela que observa. Eu simplesmente sou consciente de mim mesmo como ser consciente. Mas, de novo, esse "mim" não se confunde com o ego. O ego cresce e diminui, surge e desaparece. "Eu" sei disso porque sou permanente. A linguagem é um instrumento evolucionário, assim como a própria mente e o ego: precisamos deles para sobreviver. Ela não serve para falar do que não é objetivo, coisal. Por exemplo, quando chamamos a certeza de si de consciência, de percepção, de Eu ou seja lá como for, nós a reificamos, coisificamos, a transformamos numa "substância". A estrutura da grande maioria dos idiomas é justamente substantivo-verbo-predicado. Pela minha experiência, sou levado a dizer, porém, que não existem coisas, objetos substantivos, mas só processos, fluxo. O Eu não é uma coisa, mas um processo. O ego, igualmente. Etc. Isso só se torna um problema quando acreditamos que somos apenas ego (corpo-mente). É a ignorância acerca da nossa natureza, nossa essência como ser, conhecer, ou seja lá o verbo escolhido para dizer o indizível.
Edson, o objetivo aqui não é afirmar, negar ou provar nada. O que importa é a investigação direta na sua experiência. Tudo o que foi aprendido, lido ou pensado sobre espiritualidade, consciência ou observador não tem valor neste momento. Aqui, nada substitui o olhar atento para o que surge agora. O ponto é ver, sentir e perceber diretamente, sem se apoiar em narrativas antigas ou ideias já formadas.
Sim, é o que venho tentando fazer faz tempo. Entrei aqui justamente porque esta é a proposta de vocês.
Quando desapegamos de antigas crenças e narrativas, damos espaço para ver as coisas como de fato elas são! A palavra não é a coisa.
Entendo o que quer dizer. Mas a expressão que você escolheu é dualista. De um lado haveria a coisa, e de outro a palavra. Mas será mesmo que podemos separar as coisas dos respectivos conceitos? Se eu lhe desse como presente um objeto que você desconhece totalmente, não sabendo nem do que é feito nem para que serve, ainda assim você saberia dizer um monte de coisas sobre ele: que ocupa lugar no espaço, tem massa, forma, dimensões, cores, cheiro etc. E, veja, isso tudo antes mesmo de abrir o embrulho.
Cada observação sua é uma oportunidade de ver que a própria “certeza de ser” já é parte do fluxo que você observa, e que não há ninguém além do que acontece.
Acho que a nossa discordância está no fato de você, ao que parece, reduzir a consciência a uma qualidade do que aparece ou, em todo caso, a algo que aparece simultaneamente com as demais aparições. A um aparecer. Como tentei dizer, não é isso que constato na minha experiência.

Abraço e bom fim de semana,
Edson

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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Tue Oct 14, 2025 5:30 pm

Oi Edson,

Percebo como você vê essa constância do “ser” como algo que sustenta todas as mudanças.
Mas veja: essa certeza que você sente agora, ela mesma é o que acontece neste instante.
Não há nada por trás sustentando isso, o “sentir-se sendo” é apenas mais um movimento dentro do próprio fluxo da experiência.

O “ser” que parece estável não observa o que muda, ele é parte do mesmo movimento que muda.
A diferença é só que essa sensação é mais sutil, e por isso tende a parecer um fundo fixo.

O “Edson” ainda tenta preservar uma consciência como entidade estável, isso é mais um esconderijo do “eu”, sustentado pela crença de que há algo permanente por trás do que muda.
Mas o próprio ato de afirmar essa estabilidade já é o movimento do aparecer.
A sensação de “algo que permanece” é apenas mais uma forma sutil de busca por segurança, um pensamento travestido de certeza.

Quando se vê que não há “o que aparece” e “aquele que sabe que aparece”, há apenas o aparecer, a separação se desfaz.
Acho que a nossa discordância está no fato de você, ao que parece, reduzir a consciência a uma qualidade do que aparece ou, em todo caso, a algo que aparece simultaneamente com as demais aparições. A um aparecer. Como tentei dizer, não é isso que constato na minha experiência.
Não há discordância, apenas o pensamento tentando se posicionar como quem “constata”.
Mas quem é esse que constata? Onde ele está?
Se olhar agora, verá que o “constatar” e o “constatado” são o mesmo acontecer.
Não há “consciência” e “o que aparece”, há apenas o aparecer, sem centro.
Quando a consciência não é mais colocada fora do que surge, o esforço se dissolve, e o que resta é só o simples estar aqui.

Tenha uma ótima semana! :)
May.

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Edson
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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Thu Oct 16, 2025 2:32 pm

Oi May,

Você faz várias afirmações com as quais não posso concordar porque simplesmente não é o que me parece.

Se a consciência surge como tudo o mais, então ela também deveria desaparecer, o que não acontece.

A não ser que se confunda consciência com atenção. Podemos estar distraídos, mas disso não se segue que estejamos inconscientes.

A consciência não é uma entidade. É o próprio ser. E o ser não aparece. Ele simplesmente é.

Pensamentos não querem nada e não fazem nada. Sem consciência, eles não existem. O que se passa é que a consciência se esquece nos pensamentos. Volta sua atenção para eles, confundindo-se muitas vezes com eles.

Conheço vários professores/autores de não-dualidade moderna. Parece-me que você segue a linhagem do chamado não-dualismo radical. Talvez por influência da Ciunaite, não sei. Trata-se de uma espécie de budismo new age, que chega às raias do niilismo: só há o que aparece, tudo é fenômeno. -- Mas aparece para quem, onde?

Como disse, simplesmente não consigo ver o que vocês acham que veem. E também não encontro nada semelhante em vários professores modernos. Por acaso, estou lendo um livro do Rupert Spira (A natureza da consciência) em que ele faz justamente uma crítica a esse tipo de não-dualismo nova era.

Boa semana,

Edson

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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Thu Oct 16, 2025 4:59 pm

Oi Edson,

Entendo o cuidado e a clareza com que você observa sua experiência. O que você descreve, que a consciência não desaparece, que atenção e distração não implicam ausência de percepção, que pensamentos surgem dentro da consciência... é um excelente ponto de partida para investigação direta.

Ao invés de entrar em debates conceituais ou teorias e rotulagens, quero convidar você a olhar para o que acontece agora, no instante presente. Perguntas como “Mas aparece para quem? Onde?” já indicam a direção: para perceber se há realmente um “quem” separado do que aparece.

Exercício prático:

Sente-se em silêncio por alguns instantes, sem tentar controlar nada.

Observe os pensamentos, sensações e sons que surgem, mas não como objetos separados.

Agora, repare na sensação de perceber tudo isso — a consciência — sem projetar nela uma entidade ou um observador.

Quando notar que surge o impulso de pensar “eu percebo”, simplesmente observe que este pensamento também aparece, como qualquer outro fenômeno.

Veja se consegue perceber o “aparecer” sem precisar de um “quem” que perceba. O pensar, sentir, ouvir e perceber são apenas um mesmo movimento acontecendo.

Não se trata de provar nada, nem de afirmar se há ou não uma consciência estável. O ponto é experimentar na própria percepção que o que chamamos de “consciência”, “certeza de ser” ou “observador” já está incluído no fluxo do que aparece. Não há nada fora disso.
Conheço vários professores/autores de não-dualidade moderna. Parece-me que você segue a linhagem do chamado não-dualismo radical. Talvez por influência da Ciunaite, não sei. Trata-se de uma espécie de budismo new age, que chega às raias do niilismo: só há o que aparece, tudo é fenômeno. -- Mas aparece para quem, onde?
Como disse, simplesmente não consigo ver o que vocês acham que veem. E também não encontro nada semelhante em vários professores modernos. Por acaso, estou lendo um livro do Rupert Spira (A natureza da consciência) em que ele faz justamente uma crítica a esse tipo de não-dualismo nova era.

Quando a mente tenta categorizar, nomear ou comparar tradições, está tudo bem, isso é esperado e é normal. Mas não é isso que estamos investigando agora. O exercício é olhar diretamente para o que surge, sem mediações, sem conceitos, sem apoio em narrativas antigas. É nesse olhar que a percepção se abre e revela que não há separação entre quem observa e o que é observado.

Abraço,
May.

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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Fri Oct 17, 2025 1:44 pm

May,
Ao invés de entrar em debates conceituais ou teorias e rotulagens, quero convidar você a olhar para o que acontece agora, no instante presente.
Não tive intenção de travar um debate, apenas fiz alguns apontamentos. Os conceitos em si não importam.
Perguntas como “Mas aparece para quem? Onde?” já indicam a direção: para perceber se há realmente um “quem” separado do que aparece."

A consciência não é um "quem" (pessoal), nem está separada do que aparece.
Sente-se em silêncio por alguns instantes, sem tentar controlar nada.
Observe os pensamentos, sensações e sons que surgem, mas não como objetos separados.
Agora, repare na sensação de perceber tudo isso — a consciência — sem projetar nela uma entidade ou um observador.
Quando notar que surge o impulso de pensar “eu percebo”, simplesmente observe que este pensamento também aparece, como qualquer outro fenômeno.
Sim, os pensamentos aparecem (e desaparecem) como qualquer outro fenômeno. Mas a certeza de ser não é, em si, um pensamento. Ela precede o pensamento.
Veja se consegue perceber o “aparecer” sem precisar de um “quem” que perceba. O pensar, sentir, ouvir e perceber são apenas um mesmo movimento acontecendo.
Pensar, sentir, perceber, experienciar etc. são modos de conhecer. Não há nada fora desse movimento. Não faz sentido falar de coisas ou objetos incognoscíveis. Mas o ato de conhecer não é cognoscível.
Não se trata de provar nada, nem de afirmar se há ou não uma consciência estável. O ponto é experimentar na própria percepção que o que chamamos de “consciência”, “certeza de ser” ou “observador” já está incluído no fluxo do que aparece. Não há nada fora disso.
Você diz que não se trata de afirmar nada e em seguida faz uma afirmação categórica. Eu não vejo a mesma coisa que você. Para mim, os pensamentos acerca da consciência, do ser e do observador são aparecimentos como quaisquer outros. Mas a consciência, o ser, não o são.
O exercício é olhar diretamente para o que surge, sem mediações, sem conceitos, sem apoio em narrativas antigas. É nesse olhar que a percepção se abre e revela que não há separação entre quem observa e o que é observado.
Sim, não há separação entre observador e observado, conhecedor e conhecido, assim como não há separação entre o céu e as nuvens, o oceano e as ondas, a tela e o filme.

Abraço e bom fim de semana,
Edson

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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Fri Oct 17, 2025 4:07 pm

Boa tarde, Edson! Como está?
“A consciência não é uma entidade. É o próprio ser. E o ser não aparece. Ele simplesmente é”
Mas veja, essa afirmação - “o ser não aparece” - aparece.
Ela é conhecida, ouvida, lembrada.
Então o que é que está sendo conhecido agora?
O “ser” de que se fala ou o pensamento sobre ele?


O “ser” que parece anteceder o pensamento, o “oceano” que parece existir sem ondas, tudo isso é o próprio aparecer, já em curso, agora.
Até a ideia de “anterior” aparece dentro do presente.
Há algo fora disso?

Sugestão: Note como a mente tenta se posicionar como quem percebe o todo. como se houvesse um último ponto de observação, sereno, imóvel, do qual se pode falar sobre o movimento.
Mas o próprio impulso de se posicionar já é movimento.
É mais uma onda do oceano que tenta provar que é o oceano inteiro.
Experimente apenas observar o movimento das experiências, pensamentos, sensações, imagens... sem tentar colocar algo fora ou por trás delas.
Perceba se há algo que não seja já parte do que aparece.
Apenas veja o que é, neste instante.
May.

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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Fri Oct 17, 2025 5:05 pm

Olá novamente,
Mas veja, essa afirmação - “o ser não aparece” - aparece.
Ela é conhecida, ouvida, lembrada.
Então o que é que está sendo conhecido agora?
O “ser” de que se fala ou o pensamento sobre ele?
É impossível evitar o paradoxo quando se fala sobre o inefável.
O “ser” que parece anteceder o pensamento, o “oceano” que parece existir sem ondas, tudo isso é o próprio aparecer, já em curso, agora.
Até a ideia de “anterior” aparece dentro do presente.
Há algo fora disso?
Claro, o tempo e o espaço são aparições.

A ideia de aparecer também aparece. Mas o que ela diz? Quem diz que algo aparece? O próprio aparecer? Veja: eu lhe digo que tenho certeza de mim, de que sou, e estou consciente, ciente de estar consciente. Então você responde dizendo que a minha afirmação é apenas mais um pensamento, talvez o mais sutil de todos. Ok, mas esta afirmação sua, por sua vez, também é um pensamento. Ao qual pode suceder ainda outro e mais outro, cada um afirmando que o anterior era apenas um pensamento. Isso se chama regresso ao infinito. Não nos leva a lugar nenhuma, a nada. Ou talvez nos leve ao nada.

Abraço,
Edson

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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Fri Oct 17, 2025 5:18 pm

Oi Oi!!

Sim, Edson!

E veja, tudo isso que você acabou de dizer também está acontecendo agora.
O raciocínio sobre o regresso, o nada, o infinito... tudo isso aparece no mesmo campo onde você diz que “há certeza de ser”.

O ponto não é nem onde o regresso termina... É ver que o próprio impulso de buscar um ponto final já é parte do aparecer.
Não há algo fora dele observando.

O que chama de “nada” talvez não seja o fim, mas exatamente isso: o instante em que o pensamento já não tem mais onde se apoiar. Aqui, nenhuma conclusão é possível e, paradoxalmente, nada falta.

O “ser” de que fala, o “pensamento sobre o ser”, e até a ideia de regresso ao infinito, tudo acontece no mesmo movimento, inseparável.

Nada precisa resolver-se.
Só o silêncio que sobra quando o raciocínio perde o chão.

Fique um momento aí, antes de pensar o que isso significa.
É daqui que todas as ideias nascem, e é aqui que todas cessam.

Abraço,
May.

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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Tue Oct 21, 2025 12:05 am

Olá, May,

Sua mensagem foi um verdadeiro presente. Sinto a paz e a generosidade que emanam dela, e agradeço profundamente esse convite para repousar no silêncio.

Você tem toda a razão. O impulso de buscar, o raciocínio sobre o regresso, e até esta minha resposta, tudo isso de fato aparece. É um fluxo lindo e incessante.

E você me convida a ficar no silêncio onde o raciocínio perde o chão. É um convite precioso.

Quando sigo esse convite e realmente fico nesse silêncio, algo curioso se revela. Não é um silêncio vazio, mas um silêncio pleno. E nessa plenitude silenciosa, o que encontro não é 'nada', mas uma presença consciente e pacífica que é intimamente familiar.

É essa presença que sussurra: 'Sim, tudo isso aparece... para mim.'

O 'aparecer' é o espetáculo. Mas o 'para mim' é o próprio 'espaço' da Consciência que testemunha o espetáculo. Esse espaço não aparece como uma coisa. Assim como o olho não vê a si mesmo, mas sem ele não há visão. Sem esse espaço, o 'aparecer' não teria onde... aparecer.

O seu convite é para descansar no fim do pensamento. O meu é para reconhecer aquilo que já está sempre em repouso, mesmo no meio do pensamento mais turbulento.

Você aponta para o rio e diz: 'Descanse no fluxo.' Eu aponto para o leito do rio e digo: 'Reconheça o que é tão sólido que permite todo o fluxo, mas nunca é carregado por ele.'

Talvez sejamos dois guias apontando para a mesma montanha por caminhos diferentes. Você aponta através do vale, eu aponto através da floresta.

A 'Lua' que vejo não é o aparecer, nem o silêncio que surge quando o pensamento cessa. É a própria capacidade de ver, que está presente tanto no silêncio quanto no ruído, tanto no pensamento quanto na sua ausência. É o 'Ser' não como um conceito, mas como essa Presença consciente, eternamente imperturbável, que é o que nós somos em nossa essência mais íntima.

É isso que Ramana chamava de 'Silêncio Eloquente'. Não é a ausência de som, mas a Presença que dá significado a todo som e a todo silêncio.

Fico imensamente grato por essa troca. Ela não precisa se resolver. Ela já é, em si mesma, uma dança linda do aparecer dentro da Consciência que nós somos.

Abraço fraterno,
Edson

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Maylson
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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Wed Oct 22, 2025 2:20 am

Oi Edson, boa noite, tudo bem?

Suas palavras trazem uma serenidade rara. Há uma doçura em como você descreve esse silêncio pleno, não como ausência, mas como algo vivo, pulsante. Muito obrigado por compartilhar!
E sim, há uma beleza imensa em repousar aí, onde o raciocínio perde o chão e o que sobra é pura quietude.

Você fala de uma presença consciente, familiar, que sussurra: “tudo isso aparece… para mim.”
Mas note, com suavidade, esse “para mim” também surge dentro dessa mesma quietude, não?
Ele é conhecido, sentido, presente… como um eco sutil no próprio silêncio que o revela.

Talvez o “para mim” seja só o modo como o próprio silêncio se reconhece, sem realmente se dividir.
Como se o leito e o rio fossem expressões diferentes da mesma água, uma fluindo, outra firme, mas inseparáveis.

Nesse descanso que você descreve, há realmente dois, o repouso e o que repousa?
Ou é tudo um mesmo repouso se mostrando, sem dentro nem fora?

Nada precisa ser entendido ou concluído.
Deixe que o próprio silêncio mostre o que é, sem que um alguém o veja.
Até o “reconhecer” é só mais uma ondulação nesse repouso sem bordas.
May.

"The moment I am aware that I am aware I am not aware. Awareness means the observer is not"
― Jiddu Krishnamurti

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Edson
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Re: Quem sou eu?

Postby Edson » Thu Oct 23, 2025 12:22 pm

Caro May,

Lembrei-me da história do Rei Janaka e seu guru.

Os dois estavam discutindo os estados de sonho e vigília, e Vasishta disse ao rei que os dois eram a mesma coisa.

Naquela noite, Janaka sonhou que era um mendigo e, pela manhã, perguntou animadamente ao seu guru: "Sonhei que ele era um mendigo. Sou um mendigo sonhando que é Janaka, ou Janaka sonhando que é um mendigo?"

Vasishta respondeu: "Você não é nenhum dos dois. Você é o Eu."

Então, o Rei Janaka entendeu claramente e exclamou com júbilo: "Ah! Eu sou o Eu!"

Mas Vasishta disse: "Esse é o último obstáculo. Se você pensa nisso, não pode ser isso."

O reconhecimento pensado opera uma divisão, instaura uma dicotomia, onde tudo era --e continua sendo-- um.

Obrigado,
Edson

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Maylson
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Re: Quem sou eu?

Postby Maylson » Fri Oct 24, 2025 8:38 pm

Oi Edson,

Sim!!

E o ver disso acontece agora, antes que o pensamento diga o que foi visto.

O “Ah, eu sou o Eu” é só mais um som nesse mesmo silêncio.
Não precisa ser rejeitado, nem afirmado.
É apenas o movimento do Um dizendo “eu”.

Nada a seguir, nada a concluir.
A clareza que reconhece o obstáculo já é o que nunca se moveu.

Abraço,
May.

"The moment I am aware that I am aware I am not aware. Awareness means the observer is not"
― Jiddu Krishnamurti


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