Olá Viajante!
Os pensamentos surgem e acredito que são meus pensamentos. Noto que continuo sempre a interpretar a experiência da seguinte forma: "Sou o corpo - no mínimo o cérebro e o que mais for necessário para ele funcionar. O corpo então possui consciência, e nela cria uma representação de si mesmo, e do ambiente, para poder se guiar. Assim, eu sou o corpo, usando essa representação do ambiente para me guiar". E por interpretar dessa forma, acaba não importando muito se os pensamentos parecem surgir do nada, sem um "doer", eles acabam sempre sendo "meus".
Eu sei que isso é puramente teórico. Mas no fim sempre penso que imaginar algo diferente disso seja "wishful thinking".
Compreendo. Mas olhando com maior profundidade, o que é que faz com que o corpo seja "eu"?
Olhando por partes, um dedo, a pele, um osso, podem ser um eu?
Vês alguma razão lógica para dizer que corpo = eu?
De fato é difícil dizer que existe uma separação real entre eles apenas por serem aparentemente diferentes. Essa separação parece ser uma projeção da mente, que cria dois conceitos.
Parece ser ou é? Não é a atenção separada que lhes dás que faz com que pareçam ser separados?
Neste momento estão a acontecer dezenas de coisas à tua volta.
O fato de só te aperceberes de algumas faz com que as outras estejam de alguma forma "separadas" do que está a acontecer?
Entendo por separação existências independentes entre si. Um exemplo sou eu e o ambiente. Mas me perguntar se eu, meus pensamentos, e o ambiente somos separados por parecerem diferentes, me fez pensar..
Ah! Mas tu não és também esse ambiente? O corpo não é também "ambiente"?
Observa o que está aí. Existe algo no que te rodeia que não faça parte do ambiente? O ambiente não é um todo, completo, inseparável?
Penso que o nada não existe. Penso que no máximo é possível perceber que não há um "eu" onde eu imaginava que estaria. Mas também imagino que dê para se ter a experiência do "vazio" que a maioria dos autores cita.
Penso que se pode imaginar essa experiência. Mas experimentar o vazio? Não sei se é possível. Talvez. Mas como saber se existe algo que supostamente não tem existência?
É possível apenas encontrar pensamentos sobre esse eu e sensações na garganta, peito e estômago.
Muito bem. O medo diminui ou desaparece depois de veres que o eu não pode ser encontrado?
Tenho me questionado o que faz com que aquilo que é visto, ouvido, sentido ou pensado pareçam "meus" ou "eu" e não simplesmente imagens, sons, sensações e pensamentos.
As vezes consigo perceber como a mente sutilmente rotula essas percepções com um pensamento dizendo que "eu" estou os percebendo. Os rótulos as vezes são a imagem desse corpo vendo, ouvindo, sentindo. Perceber como o que é pensado passa a ser "meu" ou "eu" parece ser um pouco mais difícil.
Também percebo como rotular algo como "meu" ou "eu", não o torna meu ou eu.
Parece que também existe essa crença de que um eu é necessário para que essas percepções aconteçam. Mas tem ficado mais evidente que isso não é verdade.
Sim, parece que um eu tem de existir. Esse parecer, essa rotulação que fazemos, faz com que o eu pareça ser real. Existe algo em especial que te faça acreditar que um eu tem de existir? Por exemplo, na crença de que o corpo é um eu, o corpo faz algo que te leve a acreditar que é o eu? Dirias que a respiração, o sentir, o ver, a sensação de estar dentro do corpo te mantem preso à ilusão? Observa o corpo durante alguns minutos antes de responderes! :)
Abraço,
S